5 coisas que DJs podem aprender com músicos

São muitos os DJs que eu conheço – muitos mesmo – e convivo, mas até me mudar para Los Angeles, não conhecia tantos músicos. Ao me aproximar mais desse outro universo, porque pra mim era um universo completamente diferente e inexplorado da minha parte, percebi não só algumas semelhanças, mas muitas diferenças, tanto de comportamentos quanto de ideologia e tudo mais. Mas o que quero trazer aqui hoje são algumas coisas que tenho observado e que acredito que se aplicadas, podemos todos colaborar para o avanço da cena da música eletrônica, muitos músicos perceberam isso e estão começando a trilhar seus caminhos dentro da música eletrônica, se os DJs não se adaptarem, vão ficar para trás.

Então, vamos lá!

#1 Treinar o ouvido

Parece até clichê, todo DJ deveria ter um ouvido aguçado, mas eu nem vou entrar no quesito básico da contagem, por mais que existam algumas situações que o uso do sync é justificável, vamos combinar que ser dependente do sync para mixar é um tanto quanto vergonhoso, não é mesmo? Um DJ precisa aprender a escutar a música, entender seus elementos, saber quando algo novo entra ou sai, identificar as partes da música e não confiar somente no equipamento, o equipamento serve para te auxiliar, mas é o seu ouvido que vai te guiar. É ele que vai te dizer se existem elementos conflitando, ou alguma coisa fora do compasso. Quanto mais você confiar na sua audição, mas seguro você vai se sentir (e mais você vai se preocupar com a caixa de retorno no palco!).

#2 Harmonização

É tão bonito ouvir um set bem construído, quando aquela sequência de músicas fazem sentido na sua cabeça e você nem sabe explicar o porquê. É bem diferente de ouvir um set construído randomicamente, parece que alguém só pegou um punhado de músicas e colocou pra rodar no casamento daquela sua tia, sabe? Pois é. Quando comecei a aprender tocar como DJ, um dos meus primeiros desafios, depois de aprender a trabalhar com o BPM da música, foi encaixar as músicas em uma sequência que eu gostasse, parecia que nada tava bom, meu ouvido não se agradava com nada, foi aí que um amigo me apresentou o Mixed in Key, vale conferir o guia de mixagem harmônica deles, mudou a minha vida.

É importante saber o tom da música inclusive para criar mashups, seja ao vivo ou antes do show. Ainda quero chegar ao ponto de identificar no ouvido o tom da música, mas pra isso eu preciso de mais prática. Se mixar usando as tonalidades musicais já é mágico, imagine a emoção quando você está aprendendo piano e começa a identificar as notas de ouvido, o segredo aqui é simples, quanto mais você pratica, mais seu ouvido e seu cérebro ficam afiados. É como se você começasse a enxergar a música por outros olhos, no caso, ouvidos. É como aprender um novo idioma, é lindo demais <3

#3 Teoria

Quantas pessoas eu já vi ouvi dizerem que não sabem a teoria, mas sabem a prática ou vice versa. Uma coisa não anda separada da outra, é importante você saber a teoria e as regras do que você está fazendo para então, poder quebrá-las, se você já tem o dom e o ouvido apurado, você vai tirar de letra a teoria. Quando você quebra uma regra com uma boa justificativa e um bom argumento, a coisa se torna poética, mas quando você nem sabe que quebrou alguma coisa, é um erro e as pessoas não são muito abertas a erros, principalmente os músicos que entram em contato com o lado de cá e identificam esses erros, estamos dando voz e razão para as críticas, inclusive muitos DJs que são músicos tem vergonha da nossa cena atualmente, será que eles não têm um pouco de razão nisso?

Estude a boa e velha Teoria Musical, comece com as escalas, qualquer pessoa de 2 anos consegue pegar um teclado e tocar as escalas subindo e descendo, parece besteira, mas vai começar a te levar para um novo mundo. E não se assuste quando alguém vier falar do quão difícil teoria musical podem ser, aconteceu comigo também, mas a coisa é bem mais simples do que parece, não se assuste com nomes, por exemplos as escalas ou modos nada mais são do que você tocar as mesmas 12 notas (7 teclas brancos e 5 pretas) com diferentes intervalos. E OLHA QUE LOUCURA! Você já sabe tocar pelo menos um tom de cada escala. Isso porque cada vez que você toca uma sentença no seu modo natural (utilizando só as teclas brancas) usando diferentes pontos de partidas, tipo tocar de Sol (G) à Sol (G), na verdade você está no ponto de partida de uma escala ou modo, neste caso estamos falando do modo Mixolídio. Viu? Já temos um ponto de partida.

#4 Prática

Eu já vi muita gente se frustrar nessa empreitada musical, confesso que até eu mesma já me vi quase desistindo algumas vezes por achar muito difícil. Na verdade, como tudo na vida, a prática leva a perfeição e ás vezes são as “pequenas práticas” que fazem uma diferença gigante na nossa performance.

Quer um exemplo? Meu namorado é um baterista muito bom, muito bom MESMO e não é só porque é meu namorado não, ele já era muito bom nisso quando eu o conheci, o nome dele é Nate Lotz e ele toca no Brasil com a Halsey na próxima semana, by the way. Numa de nossas viagens, passamos 5 dias no deserto de Joshua Tree aqui na Califórnia, era aniversário dele. Eu estava preparando o almoço e ele foi treinar (bateria) e eu já achando que ia ficar que nem aquelas mães de adolescente bem loucas com aquele barulho todo dentro de casa, depois um tempo, até esqueci o que ele ia fazer e um tic-tac começou a me incomodar e fui seguindo o barulho, quando entrei no quarto, ele tinha montado só o kick, o snare e o hi-hat da bateria e tava batendo os pauzinhos como um metrônomo e eu perguntei sem entender nada “O que você tá fazendo?”, ele disse que estava treinando a precisão dele.

Porque temos o famoso “click” (é um ponto eletrônico com um metrônomo que conecta todos os músicos da banda e torna tudo tão preciso), não quer dizer que os músicos se tornam dependentes da ferramenta, eles ainda praticam sua precisão, até porque vai que um dia dá problema no click? Como você vai tocar se você não sabe contar? DJs, aprendam, ou melhor, pratiquem! Isso vale para os produtores também 😉

#5 Musa Inspiradora

Quando o assunto é criatividade, você precisa da sua Musa Inspiradora. Quando comecei a estudar teoria musical e composição, achei muitos livros com linguagens super difíceis até que o meu professor da DJ Ban, o Will Geraldo, falou da série “Teoria Musical para Leigos”. Eu comprei alguns, incluindo o de “Composição Musical para Leigos” e um dos temas era: Ajudando sua musa a ajudar-lhe, e duas dicas muito importantes eram:

  • A Musa gosta de ser alimentada
    Todo dia, exponha-se a uma variedade de influências musicais – não apenas as velhas favoritas que você segue repetindo. E caso você queira que sua Musa receba uma exposição real à música diferente, faça-o com atenção.
  • A Musa gosta de ficar quieta
    Música de fundo muitas vezes silencia ou distraia a Musa. É difícil se concentrar no que você está escutando em sua mente quando seus ouvidos físicos estão ligados em outra coisa. A Musa é tímida. O silêncio com frequência faz com que ela saia de seu esconderijo.

Nesse sentido, um dos últimos livros que li e que gostei muito foi “Silêncio: Na era do ruído”, o autor Erling Kagge disse em entrevista: “Quando se escuta boa música, isso está relacionado com o tal silêncio, porque nos concentramos na música, não estamos a viver no passado ou no futuro, estamos a viver o instante.”

Aprenda a ouvir sua Musa, permita-se ficar em silêncio e ouça sua voz interior, medite. Está aí mais uma coisa que aprendi em Los Angeles, muitos músicos e artistas estão procurando melhorar o seu estilo de vida, procurando uma vida mais saudável, orgânica-vegana e conectada com o universo, o que ajuda a criatividade, a paz de espírito, acalma a mente e abre espaço para a criatividade. Completamente o oposto do estilo de vida de um DJ, mas não vamos entrar nesse assunto agora.

Tem mais alguma dica? Colabore nos comentários.

Espero que tenham curtido!